
Não direi que estou calejada, uma vez que descobri que até nesta fase da vida, em que me encontro, me deparo com enganos, decepções, e erros ao acreditar que sou capaz de enxergar a alma e os sentimentos das pessoas às quais me apresento de coração aberto e com entrega total e, somente o tempo (muito tempo) acaba me mostrando o quanto errei ao crer na sinceridade do que ouvia e dos actos que eu julgava serem praticados com lealdade e amor. Descobri que sou incapaz de conhecer alguém verdadeiramente, porque acredito na ilusão dos meus olhos, dos meus ouvidos, do meu coração. Eu seria capaz de garantir, sem pestanejar, que reconheceria, em qualquer lugar deste planeta, o ser que materializasse tudo que sonhei, porque cria piamente que aquele que soubesse interpretar a minha alma, que revelasse extrema identidade com o meu modo de ser, de pensar, de agir, sentisse por mim tudo que eu lia nos seus olhos, que ouvia da sua boca. Errei e como errei! Descobri que a sensibilidade e até o amor podem ser teatralizados quando existe plateia. Descobri, tristemente, que algumas pessoas, sob o manto de pretensas carências afectivas, de sonhos que completem seus mais íntimos sentimentos, de demonstrações efusivas de realização pessoal, esquecem que do outro lado existem seres humanos de verdade e que brincar com sentimentos, em qualquer fase da vida, pode causar rombos incorrigíveis e feridas incicatrizáveis, em corações de boa fé, repletos de amor sincero para ser doado em toda sua dimensão ao ser que se dispôs a recebê-lo. Não, eu não direi que estou calejada. Direi, apenas, que o meu coração endureceu, que um único ser foi capaz de me transformar, primeiramente plantando um jardim perfumado dentro de mim, e, depois, arrancando cada galho, cada flor, cada semente, sem anestesia, até remover toda a terra capaz de reproduzir, deixando, enfim, um terreno árido, improdutivo. Nem mesmo o jardineiro que assumiu o papel de destruidor de sonhos, de crenças, de esperanças, de magias, de encantamento, de ilusões. É bem verdade que a vida continua e que dela devemos absorver o que há de melhor e que o melhor é produzido por nós mesmos. Somos os únicos responsáveis por isso.